Travessa Boa Esperança

Naquele trecho de rua, a solidão e um certo abandono moram. Uma máquina parada, bem no meio de um pátio, entre a grama já cortada e a por cortar, é a cena evidente de uma vontade que morreu jovem. Há a tentativa de um canteiro, com algumas flores nascidas e sementes abandonadas. Há vestígios do sonho da parede, de uma pintura restauradora, precocemente acordado.

Naquele trecho de rua as pessoas são solitárias. Até amam, e às vezes tentam, mas não conseguem levar adiante as intenções amadas. Janelas meio limpas, meio sujas, telhados meio quebrados. Xícaras de chá frio, mal bebidas.

Os solitários, em suas curtas caminhadas, usam uma peça de roupa rota, outra bem cuidada. Quando alguém pergunta “Como vai, tudo bem?”, o outro não responde. Quando ninguém pergunta, fica uma vontade perdida no nada. Cartas de perdão, nunca enviadas. Palavras acorrentadas às cordas vocais, nos porões das gargantas.

As pessoas da cidade que há em volta daquele trecho de rua, quando transitam ali, subitamente lembram, ou esquecem algo, e retornam. Mas é o lugar preferido dos que precisam dar telefonemas difíceis. Estacionam seus carros na quietude e discrição das sarjetas mal varridas para falar com amantes, terminar relacionamentos, tramar golpes e articular vinganças. Iniciam, mas não conseguem terminar seus assuntos, revelando assim suas intenções e saindo, daquele trecho de rua, com o dobro dos problemas que tinham quando entraram. É um mistério, este fenômeno mal acabado. Cientistas já foram escalados para estudá-lo, mas o estudo não foi concluído. Há vários destes lugares espalhados pelo mundo e uma teoria é que são pontos de interseção de universos. No paralelo a outra metade da grama está cortada, as palavras foram libertas e as cartas enviadas, ficando assim a intenção, que transita livre no vácuo, saciada. Mas esta é só mais uma teoria, que nunca pôde ser comprovada.

Outros dizem que estes lugares são, na verdade, incubatórios de esperanças. Elas nascem com os mesmos valores e defeitos dos homens, senão não se encaixariam em seus corações. Esperanças adolescentes também se desesperam, têm dúvidas, raivas e depressões em seus caminhos para a fase adulta. Esperanças também pensam em desistir de tudo. Por isso existem esses lugares, onde o universo mantém tudo inacabado. Nessas travessas, becos e trechos de rua, desiste-se de tudo, inclusive da vontade de desistir. Neles as esperanças nascem e passam uma temporada, assim sobrevivem e se fortalecem, para então ocupar um coração exausto.

Esta é minha teoria preferida, sobre estes becos, travessas e trechos de rua.

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