Tatuagens de lençol

Caóticos e efêmeros são os desenhos impressos na pele. Gosto de observá-los, antes que desapareçam. Antes que ela acorde. A noite de sono deixou as marcas da bagunça dos lençóis na suavidade morna da pele. Desarrumação dos tecidos, que esculpimos juntos, compondo um quadro em baixo relevo sobre o qual desfalecemos. A noite é para a desordem, é para os sonhos sem nexo e para bagunçar a roupa de cama. Quando o despertador anuncia o nascer da rotina somos jogados, num susto, ao mundo dos compromissos e da realidade. Abandonamos, sem pudor e com urgência, os sonhos, os cheiros e o calor das peles. O que há de tão urgente no dia, que não possa esperar por um momento no vácuo entre o sono e a vigília? Descobri este período etéreo. Ele dura enquanto durarem as tatuagens de lençol.

Já vi nestes desenhos, cidades incríveis, pássaros de origami, paisagens que se perdiam nos vales carnais, uma moldura floral para os olhos sonolentos, um caminho na face que conduzia à boca. São formas impressas que pedem o olhar, antes que sejam sugadas para sempre pelo dia adulto. No sono, somos crianças que brincam com o subconsciente. Desconfio que há um pacto entre os sonhos e os lençóis, pois já vi muitas cenas oníricas impressas na pele. É como se os sonhos nos desenhassem enquanto dormimos, usando a maleabilidade dos tecidos como pincel.

É provável que você pense que isto é o típico delírio matinal, quando os baixos níveis de cafeína nos deixam grogues. Você também deve estar pensando que se parar para olhar os desenhos na pele da pessoa amada, cairá de novo no sono.

Mas esta é a armadilha. Os sono nos quer de volta e o dia nos exige imediata participação no seu delírio iluminado. Somos compelidos a escolher entre um e outro. Mas entre um e outro há o momento sublime, que desaprendemos a perceber. O dia a dia que criamos apaga rapidamente as tatuagens. Elas são um grito dos sonhos, que é diariamente sufocado. Os sonhos tem espaço no sono, mas raramente o tem na vigília. Os sonhos são solenemente esquecidos, pulverizados como vampiros expostos aos raios de sol, assim que acordamos . Você não leva seus sonhos para o seu dia, por isso eles gritam na pele de quem divide sua cama. Aquele que sonha, além do sono, é perigoso. Ele pode questionar a ordem do dia, ele pode querer alterar a ordem do dia, ele pode, poeta, ser o dia. Depois de observar as tatuagens de lençol, e as ver desaparecendo, você perceberá que também somos uma marca indelével na pele do tempo. E que rapidamente desbotamos. A não ser que conquistemos olhos que achem que vale a pena observar os traços que deixamos, e se deixem contaminar com nossos sonhos, e nós com os deles.

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