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Tem mil buracos nas ruas da minha cidade.
out 11, 2010 | Artigos 7 Comments »No meio do caminho tem mil buracos, tem mil buracos no meio do caminho.
Carlos Drummond de Andrade que me perdoe pela brincadeira com seus versos, mas como eu vivo na dita “cidade das artes” pelos nosso políticos locais, penso que eu tenha esta licença poética. Nos últimos anos tem se proliferado nas ruas da minha cidade, uma infinidade de buracos, o que me leva a filosofar:
Um buraco sempre é um mistério, seu significado simbólico é «a abertura para o desconhecido».
Alice caiu em um buraco para chegar ao País das Maravilhas, Hitler e Saddam esconderam-se em buracos quando a coisa encrespou. Em tempos primevos, nós vivemos em buracos…Tesouros são escondidos em buracos!
No plano do imaginário o buraco é mais rico em significado do que o simples vazio, é repleto de possibilidades daquilo que o preencheria ou o que passaria por sua abertura.
E o fundo? que mistério maravilhoso é o fundo?
Quando se pode dizer que aquele é o fundo de um buraco? Sempre se pode cavar mais, sendo o fundo um arremedo de infinito.
Foi de um buraco aberto por uma machadada do deus Efestos no crânio de Zeus (sim os deuses greco-romanos viviam intensamente) que saiu a deusa da inteligência, Atena.
O buraco pode ser considerado como «o caminho do parto natural da ideia».Adoro buracos!
Tive a sacada na semana passada: Nossa cidade tá cheia de buracos porque é a cidade das artes, na verdade eles são uma grande instalação artística ao ar livre.
Na Europa não tem isso!
Com isso me veio outra ideia, temos que ser interativos com os buracos, não só eles com a gente. Vamos lançar a campanha «Adote um Buraco!»Você pode por exemplo, decorar seu buraco, pode andar em sua volta e descobrir formas, depois pintar o buraco revelando a forma que estava escondida.
Vejo um diariamente que tem a forma de um pato.
Você pode decorar suas bordas desenhando flores ou outras formas, sempre tem um restinho de tinta na garagem, coloque seu lado artístico no buraco!
Conversei com um pessoal no Bairro Timbaúva que estão planejando assar um churrasco num buraco, isso que é convívio harmônico com as diferenças.Eu passo (literalmente) por um todos os dias, há umas três semanas começamos a nos cumprimentar, anteontem ele me fez sinal para parar, baixei o vidro e ele falou:
” – Bom dia! Olha, tem um rasgo interno no seu pneu dianteiro esquerdo, é melhor ver isso!»
Agradeci e fui direto ao borracheiro, opinião de especialista não se discute.
Neste clima, já que estamos nos entendendo, eu e o buraco, resolvi dar minha contribuição para a campanha revelando um pouco mais da vida, dos anseios e, por que não, da intimidade deste cidadão montenegrino. Segue o agradável bate-papo que tive com meu profundo amigo:
Kauer: Bom dia! Nos conhecemos de vista e ainda não sei seu nome.
Buraco: Bom dia! Me chamo Aldo Orifício, muito prazer!
Kauer: Sua família esta crescendo na cidade não é?
Buraco: Nós os Orifícios somos pioneiros na cidade, mas hoje tem outras famílias como os Covas, os Tocas, os Furos, os Rombos e os Crateras, tudo gente boa!
Kauer: Por que Montenegro?Buraco: Primeiro pela tranquilidade né? Aqui ninguém nos incomoda, não ficam nos tapando toda hora e quando fazem é com carinho. Depois
tem o programa de incentivo aos buraco implantado na cidade, por conta de obras bem planejadas, estamos contentes, é a primeira cidade que nos acolhe com tanto carinho, acho que encontramos nosso habitat.Kauer: Você diria que esta é uma cidade como você nunca viu?
Buraco: Com certeza!
Kauer: O pessoal trata vocês bem por aqui?
Buraco: Bah! O povo é gente fina! Diminuem a velocidade quando passam em cima da gente, estão sempre falando da gente. Tem uns que ficam horas nos admirando. Outro dia jogaram um carro inteiro dentro de um primo nosso, foi uma loucura! Ele saiu no jornal, ficou famoso. Agora você me entrevista, se continuar assim vamos ter um representante na política local logo logo.
Kauer: E quais são o seus valores? Em que vocês acreditam?
Buraco: Somos muito religiosos sabe, cremos no Grande Buraco Negro que tudo criou e para onde todos iremos no final. Queremos viver bem esta vida, crescer, multiplicar e sermos reconhecidos como um aspecto importante da vida, todos os seres vivos vem de um buraco, isso não é por acaso, isso é místico cara!
Kauer: E política? Vocês apoiam algum candidato?
Buraco: Olha, assim como vocês, nós já estamos tapados com a política e o políticos do país! Em época de eleição vem uns, tiram fotos nossas, nos filmam, fazem discurso sobre a gente, dizem que somos uma vergonha e blá-blá-blá. Daí vem o outro e nos tapa pra na verdade tapar a boca do adversário. Nós não queremos ser buracos-eleitorais, queremos ser reconhecidos pelo que somos. Os políticos não gostam da gente, a gente tenta se instalar na frente da prefeitura mas logo nos expulsam de lá!
Kauer: Pra finalizar, uma mensagem para os leitores:
Buraco: Lembrem-se: Um buraco mal-tapado ainda é um buraco. Sua essência está ali e será uma questão de tempo até ele se revelar novamente. A consciência e os valores morais de vocês humanos devem ser muito bem pavimentados e mantidos, senão nós surgiremos e seus caminhos morais serão tortuosos.
Kauer: Muito profundo! Mas esta filosofia não depõe contra vocês?
Buraco: Queremos nosso espaço, mas não na consciência de vocês.
Kauer: Muito profundo…
Buraco: Eu sei, o tempo está me fazendo cada vez mais profundo e sábio.
Kauer: Bom, muito obrigado Seu Aldo, pela entrevista e pela lição de vida, nos vemos por aí!
Buraco: Paz!
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Corrupto é como droga.
out 9, 2010 | Artigos, Charges 1 Comment »A corrupção vicia, se espalha, alcança todos os níveis sociais, tem as fórmulas antigas e tradicionais e, de tempos em tempos, aparece uma versão mais tóxica e viciante. Será que tem tratamento pro usuário recreativo que começa «aceitando uma bolinha por fora» e pro usuário crônico que enche a cueca de dinheiro? Será que vale uma campanha com cartazes, anúncios e plásticos nos carros? Será que seria efetivo um monte de gente ficar por aí assumindo que «Somos todos contra a corrupção» enquanto ela continua como um mal sistêmico que é combatido com muitas palavras e poucas ações? Não seria este monte de «contras» uma piada pros fornecedores dos «produtos»? Quanto tempo vai demorar para que a célula individual da sociedade tenha consciência de que o seu «barato» alimenta o câncer social? Quanto tempo vai demorar para que os recursos saiam das cuecas e venham para investimentos em tratamento, prevenção e educação? Como pode, a célula ir matando aos poucos o corpo em que vive? Perguntas, perguntas…eu tenho que perder esse vício…
UMA SOCIEDADE COM VÍCIOS ELEGE SEUS LÍDERES SOB SUA ÉGIDE.
A CÉLULA QUE É CONIVENTE COM O ERRO DISSEMINA UM VÍCIO COMO SE VIRTUDE FOSSE.
EM UM CÉREBRO QUALQUER, LÁ NUM HIPOTÁLAMO QUALQUER, TEM UM REI QUE QUER PRAZER.
SE O PRAZER DESTE REI FOR PERNICIOSO AO TODO E O TODO FOR SEU CÚMPLICE… -
Candidatos a venda
out 9, 2010 | Artigos No comments yet
Detalhe da charge de Gerson Kauer enviada ao senado em 2009
Uma campanha publicitária para “vender” um político tem muitas semelhanças com uma campanha para vender um produto, mas tem um aspecto em particular, que é injusto: A devolução.
Quando se anuncia um produto a imagem que aparece é a embalagem, o rótulo e todo o conceito criado em sua volta.
Quando se anuncia um candidato a imagem dele, o rótulo criado para ele, é o que aparece, junto com o conceito criado em sua volta.
Se você foi seduzido pela propaganda de um produto e o compra, irá comprovar se ele é bom ou adequado para você no primeiro uso, se não for, não compra mais ou em casos mais extremos, reclama, devolve e denuncia a má propaganda ao CONAR.Mas se você foi seduzido pela propaganda, pelo rótulo e pelo conceito do anúncio do candidato, vota nele e depois vê que ele não era o “produto” adequado, não vai conseguir devolver sem um esforço hercúleo.
Como saber se o “produto” é bom antes de usar? Com pesquisa, com memória e com investigação antes da escolha. Dá trabalho? Sim, mas dá mais trabalho devolver, neste caso. Além disso, quando você vai comprar um uma TV, um computador, um carro ou outro bem você pesquisa antes, correto? Com candidato também é assim, tem que pesquisar muito antes de escolher.
Quando o produto eleito não presta você pode reclamar e espernear, tem este direito constitucional (lindo isso), mas pouco adianta. Se você juntar muita gente, fazer muito barulho, chamar a atenção da mídia, é possível que consiga bom resultado, mas você não tem tempo pra isso, tem que sobreviver.
Você também pode aguentar o “produto” até ele acabar, o que é muito comum, mas convenhamos, é muito caro para a sociedade, você não sente, mas é caro.O melhor então ainda é detectar antecipadamente se o produto é ruim, e ir aos poucos “errando menos” já que acertar mesmo está difícil. Sendo assim, me proponho a contribuir com algumas dicas para facilitar a escolha.
Uma das peças publicitárias do “produto Candidato” é o discurso. Ele sempre é muito bonito e bem intencionado, mas muitas vezes não o entendemos ou ficamos com a sensação de que “O cara falou bonito, mas eu não sei bem o que ele disse…»
Abaixo eu cito algumas expressões comuns em discursos e sua tradução, fique atento nas campanhas:
” Nós” – Chama-se tecnicamente de “Plural Majestático” – Pra não parecer que está sozinho ou que toma as decisões sem consultar as bases, ou ainda, pra parecer que há um grande grupo de técnicos e estudiosos dando suporte às ideias do partido fala-se “Nós” e não “EU”.
É um “Eu ” politicamente correto. Uma vantagem do “Nós” é quando o “produto” faz cagada, daí a responsabilidade não é “DELE” é “DELES”. Plural salvador em muitos casos.“ Estamos fazendo um grande esforço para…” = “Não está pronto e não faço a mínima ideia de quando estará.»
Todo político sempre está fazendo um grande esforço para alguma coisa que não vai cumprir no mandato. Normalmente quando se re-candidata ou concorre a outro cargo ele responde às críticas com uma variação desta expressão:
“Apesar dos nossos esforços o projeto não foi concluído pois não conseguimos apoio necessário…” ou seja:”A culpa é dos outros que não aceitaram fazer conchavos com a gente.” Normalmente esta culpa é de algum partido que não está na coligação atual do discursador.” Estamos engajados nesta luta…” = “Não posso dizer claramente que apoio ou não apoio para não perder votos.”
Via de regra esta expressão vem seguida de algo como:
«Precisamos analisar melhor o escopo da proposta e fazer ajustes necessários…” Sabe o que quer dizer isso? “O projeto é ruim pra gente, só aprovamos se mudarmos tudo de modo que nos beneficie.”
« Esta situação é inconcebível, nós vamos acabar com isso!” = ” O cara que tá no poder não é dos meus, então vou criticar tudo que ele não arrumou.”” Já fizemos bastante, mas temos que fazer ainda mais…” = “O cara que tá no poder é dos meus ou sou eu, então vou fazer de conta que algo foi feito, mas não posso dizer que ficou pronto porque tá todo mundo vendo.”
” Há uma campanha difamatória contra nós…” = “Algum idiota (ou vários) do meu partido deixou furo e estamos tratando de abafar.”
Esta não precisa comentários adicionais.” Se houve algum deslize vamos investigar e punir os responsáveis…” (Percebeu o “Se” houve?) = “Algum idiota do meu partido deixou furo e estamos tratando de abafar.”
” Não estou a par dos fatos…” = “Ainda não consegui inventar uma desculpa razoável.”
« Vou consultar as minhas bases para tomarmos a decisão mais acertada.” = “Eu não mando nada, não decido nada, tenho que ver o que os caras que me patrocinam querem que eu diga.»
” Analisei melhor e repensei minha opinião.” = “Recebi um puxão de orelha porque falei sem consultar os caras que me patrocinam.”
« Vamos mudar este país!” (ou este estado, ou município). Esta frase não significa absolutamente nada, é falada quando os cabos eleitorais estão em pré-êxtase, após a ouvirem eles explodem em um orgasmo coletivo. Via de regra o resto do povo vai junto na empolgação, brasileiro adora suruba.
Esta frase tem muitas variações: ” Vamos renovar este país!”, ” Nunca antes visto na história…”, “ Você nunca viu…”E finalmente a expressão da moda:
” Não sei de nada!” = ” Eu sei tudo, eu sabia de tudo, mas se admitir eu tô f…..”
Pra finalizar eu quero dar uma outra dica prática para a escolha de um candidato.
Sim, existe alguns bons por aí, mas os ruins ficam na mesma prateleira e tem embalagens tão bonitas, daí fica difícil, eu sei. Então em vez de escolher o cara porque ele é parente, porque é bonito, porque “precisa”, porque fala bem, porque me deu um caminhão de aterro, porque a campanha foi mais bonita que a dos outros, porque vai me dar uma “boquinha”….faça o seguinte:
Imagine que você economizou toda a sua vida pra montar um negócio, um mini-mercado, um boteco ou uma fábrica e precisa de um gerente.
Este gerente vai representar você, vai tomar decisões, fazer compras, vai mexer com seu dinheiro, contabilizar seus lucros enquanto você se dedica a fazer o seu empreendimento crescer. Você daria seu empreendimento, seu dinheiro e seu sonho pra este moço em quem você vai votar? Não? Então procure outro.E finalmente, políticos são pessoas como nós, cheias de falhas e tentações, vivendo em um ambiente sedutor e cheio de “facilidades”.
Quantas vezes nós mentimos, distorcemos, enganamos e tiramos pequenas vantagens? Se um dia formos políticos não tiraremos “grandes vantagens”?
A mudança que tanto queremos começa por nós, os nossos valores e ideias irão passar para nossos filhos. Se aceitamos o caminhão de aterro em troca de um voto como cobraremos do nosso político a “venda” de sua candidatura? A classe política que está aí não é uma imagem saturada de nós mesmos?
Quando tivermos mais eleitores com valores dignos do que eleitores com valores duvidosos começaremos a real mudança.



