• Teísta mata em nome de Deus

    5 Comments »

    Incrível! Vale a pena ver o vídeo abaixo. Quem mandou o link foi meu amigo Fabio Santini, é do blog “Humor Ateu”.

    Conforme o blogueiro ateu comenta:

    “Afinal, a tua bíblia te ensinou a matar a fio de espada todos aqueles que não acreditarem no teu deus…”

    Este vídeo vem a calhar, pois recebi o convite do meu amigo escritor Pedro Stiehl, para aderir ao movimento “Ateus! Saiam do armário!” Inspirados pelo texto de outro genial blogueiro o professor Idelber Avelar em seu blog  “O biscoito fino e a massa” texto este, que reproduzo abaixo do vídeo, complemento perfeito à reflexão sobre deuses e crenças.

    Veja o vídeo e não dixe de visitar os blogs “Humor Ateu” e “O biscoito fino e a massa” eles convidam a várias reflexões.

    Ateus, saiam do armário! Ateísmo e falsas simetrias

    Idelber Avelar no blog “O biscoito fino e a massa.”

    O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque … afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos– uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.

    Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de … estar querendo evangelizar os outros!

    Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?

    Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.

    A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.

    Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo — desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.

    Entendam o ponto de vista d’ O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer “ah, tem que respeitar minha religião”.

    Ideias não foram feitas para serem “respeitadas”. Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.

    As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.

    Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.

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This entry was posted on julho 29, 2009 at 6:04 pm
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5 Comments to “Teísta mata em nome de Deus”
  • Oscar Bessi Filho says: 30 de julho de 2009 às 10:14

    Pensei num movimento, ao estilo de negros, gays, aidéticos e torcedores do Inernacional, todas essas minorias massacradas pelo preconceito. Nós, ateus, poderíamos fazer a primeira marcha “Ah, Toa!” mundial. O problema é que seria tão à toa que cada um iria marchar para um lado diferente, ou lado nenhum. MAUS. Marcha dos Ateus Universais Segregados.

  • Pedro Stiehl says: 31 de julho de 2009 às 9:24

    Caro Kauer
    A proposta do professor Idelber Avelar é das boas mas difícil de ser cumprida. Como ele mesmo diz, o preconceito contra ateus (no meu caso, agnóstico, que vem a ser uma versão mais light, drummondiana) é muito maior. Se fazer críticas bem humoradas a governichos locais já fechou um caminhão de portas, posicionar-se neste tema não permitirá nem mais levantar a tampa da privada. De qualquer forma, um fundaço aqui outro ali sempre se deu. E vamos continuar dando. Já comprei borracha nova e cortei uma forquilha bem legal do meu pé de goiaba. Só não contem pro Ibama. Agora tô preparando as bolitas. Vai ser só no olho!

  • Kauer says: 31 de julho de 2009 às 15:59

    Certo Pedro! No teu caso nada pode ser simbólico do que algumas “Pedradas”. Eu também não vou conseguir muito mais do que isso, mas o tema é muito convidativo, já achei alguns argumentos interessantes na web para discutirmos, só tem um problema: teremos que dar uma lida na Bíblia…

  • Oscar Bessi Filho says: 1 de agosto de 2009 às 20:09

    Ler a Bíblia? Posso optar pelos rascunhos daqueles discursos do Azeredo? Tortura por tortura, prefiro cerveja sem álcool. Pedro, e desde quando ateu light tem arsenal de fundas no porão? Vou contar pro Ibama, sim. E pro Obama também. Não posso me omitir. A não ser, claro, que pinte uma caça no espeto. E cerveja. Com álcool, claro. Ah, vou contar pra vocês: dia desses perdi um leitor pela conta de ser ateu. Já contei? E olhem que nem divulgo este meu lado, digamos, pervertido da alma. Ele descobriu. Correu à igreja, pediu penitência por ter gostado de alguma coluna anterior e jurou nunca mais me ler. Bá. O cara já tem um terço de dúzia de leitores, e um ainda arriba! É como diz o Pedro. Só se fundarmos uma sociedade secreta. Numa gruta por aí, quem sabe. Podemos tomar todas, xingar as religiões, chamar José de corno e ainda dar uns arrotos. Que tal?

  • Pedro Stiehl says: 2 de agosto de 2009 às 14:36

    Tá feito! Confraria dos atoas. É o que se tornou este cantinho aqui. Mais do que nós ninguém se mete. É a lei do lugar-comum. Bater no Sarney qualquer um bate. No Inri, já é outra história. Tudo depende do que se está disposto a perder. No mais das vezes, é melhor ficar entocado do que ser queimado numa fogueira. E olhe que isto ainda é bem possível, mesmo que metaforicamente.

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